quinta-feira, 19 de junho de 2008

Procuram-se mentores

Fantástico é o mundo de hoje. Inimagináveis possibilidades de interação e aprendizado com as redes de telecomunicações, troca de arquivos, customização de tecnologias, aparelhos pessoais para armazenamento de informações, etc.

--------> Fantástico, pero no mucho.

Eu fico abismado que diante de tanta possibilidade de se coletar algo novo para melhorar nosso caráter, nossa sabedoria ou nosso conhecimento técnico, a média das pessoas que entram na Internet só querem mesmo é virar papagaios das opiniões alheias. São poucos os que têm sensibilidade própria para analisar alguma coisa, fazer um resumo oportuno ou trazer uma visão nova sobre algo. O que se tem, geralmente, é um festival de repasse de links e frases de outros.

Isso tem me assustado ultimamente. Dá a impressão que se caminha para um nivelamento do pensamento e das atitudes em plena "Era do Conhecimento".

Não dá pra dizer que a Internet é a culpada. Eu sempre me pergunto, em casos assim, se isso já não acontecia e a Internet apenas trouxe à superfície visível algo que já se encaminhava. Desde que eu era um aluno de escola estadual eu vejo críticas à educação de jovens.... e lhes garanto, isso foi em um tempo muuuuuiiiiiiiito pré-Internet.

Talvez, a explicação esteja na síntese do livro "The Dumbest Generation: How the Digital Age Stupefies Young Americans and Jeopardizes Our Future (Or, Don't Trust Anyone Under 30)". Seu autor, Mark Bauerlein, tem outros livros sobre literatura, é professor da Universidade Emory, em Atlanta, e ex-diretor de Pesquisa e Análise na Fundação Nacional (americana) para as Artes.

Para ele, entre os problemas que evidenciam um emburrecimento da geração mais jovem, está uma razão muito simples: são jovens e, por isso, imaturos, afobados, deslumbrados e inexperientes. Antes que qq um fique nervoso, pense.
Vc se torna um bom amante só pq deu um beijo, ou mesmo antes de dar qq beijo?
Vc se torna um bom motorista só pq sabe andar de carrinho de rolimã?

Veja um bom quadro sobre os pontos do livro nesse slide show do The Boston Globe "8 reasons why this is the dumbest generation".

Outro ponto, explicado pelo jornalista Gilberto Dimenstein no seu site Aprendiz, no texto "Internet Emburrece?" é que:

"as tecnologias digitais permitiram que os jovens passassem ainda mais horas do dia trocando informações com seus pares, mas, ao mesmo tempo, diminuiu o tempo de intermediação dos adultos nos processos de aprendizado".
Não é realmente o caso de se culpar a Internet. O que me parece é que uma configuração qualquer da sociedade fez os jovens se distanciarem dos adultos. Dá pra ver que não é a rede por uma coisa que eu vejo há anos no mercado de trabalho. Há uma juniorização em várias atividades. Muitos jovens assumem cargos de grande responsabilidade sem terem a experiência ideal. Entre as razões para isso está simplesmente a busca por custos menores das empresas. Elas substituem o profissional sênior que ganha mais por um iniciante que ganha menos e não reclama porque acha isso uma grande oportunidade.

Ótimo para empresa, mas péssimo para a continuidade do conhecimento. Mesmo que muito da técnica necessária para a rotina do cargo não vá embora com o sênior e fique nos sistemas, processos e computadores da empresa, a chance de aprendizado que se perde é algo inestimável. Esses caras dispensados são os mentores dos mais novos.

Jovem sem mentor dificilmente consegue ser mais do que chorão e engraçado. São raros os que conseguem ter talento e atitude diante de desafios e novas idéias.

Recentemente, eu vi pessoas da área de publicidade e marketing reclamando disso. Não há quem ensine. Existem sim lá uns megasuperastros da publicidade na diretoria da agência, mas eles são inatingíveis. Lá, no estúdio, na sala, não tem. É tudo um monte de gente da mesma idade, com os mesmos problemas e as mesmas soluções. Falta alguém para se mirar, medir e desafiar (o que é natural para a evolução da pessoa e das idéias). Talvez, por isso mesmo a publicidade brasileira só tenha conseguido produzir essas piadas adolescentes nos comerciais ultimamente.

Acho que esse vácuo criado é que está sendo confundido com a Internet. O que a rede fez foi só aumentar os canais de comunicação entre esses jovens. O problema é que eles não descobriram os mentores ainda na Web. Não é o caso de ficar lendo o SmartMobs pra ver o que o Howard Rheingold está pensando, ou segui-lo no Twitter... ou fazer isso com qualquer outro pensador de mídias digitais. É ter alguém como se estivesse na mesa do lado, aquele cara que dá pra tomar café e trocar idéias, que te dá um insight quando reclama da vida e te chama de moleque.

Será que é um campo novo que se abre? Profissão: e-Mentor, especializado em rabugice e ceticismo.

6 comentários:

Fred Fagundes disse...

O grande problema da Internet é a repetição de conteúdo. Como você citou, são poucos os com opinião formada. É um copy paste exageradamente forçado.

Já o conteito de blog está totalmente distorcido. O que era pra ser uma ferramenta de comunicação tornou-se uma vitrine de egos. Foi-se o tempo em que blog era um meio alternativo, hoje ele é mais visto - principalmente pelos jovens - como uma forma de ganhar dinheiro e fama.

A profissão de comunicador se prostituiu. Blogueiros discutem com jornalistas que não levam a sério os blogs. Ao mesmo tempo, os mesmos blogueiros ridicularizam atores e músicos por terem blogs.

Talvez o blogueiro hoje seja muito valorizado. É preciso colocar a classe em seu devido lugar.

Lain disse...

Os jovens são sim afobados. Isso resume tudo. Por exemplo, ainda se repete a mesma atitude de quando eu era estudante que pesquisava no Tesouro da Juventude da biblioteca da minha escola de ensino médio. Hoje o pessoal pesquisa TUDO primeiro na wikipédia. E ainda tem a capacidade de malhar a dita sobre a credibilidade. Malham, mas usam. E isso vale pra tudo. Detonam o jornalismo local, mas querem uma vaguinha lá. Os papagaios de opiniões alheias também existiram sempre, é só lembrar dos caras que liam orelhas de livros e ouviam falar de bandas e diziam que eram maravilhosos (isso acontecia antes da web ser popular). Acho que não é a geração que é mais burra, mas é a geração que é mais vista, porque se expõe mais e porque é mais fácil ser desmascarada (nas suas falcatruazinhas). No semestre passado, eu procurei ler uns textos de revistas especializadas para entender o comportamento dos meus alunos dos períodos básicos da graduação. Um semestre é pouco. E vi que apenas ler sobre não adianta também, tem que observá-los. Porque os alunos na faculdade também são muito jovens, muito mesmo e... apressados, querem tudo rápido. E quase não querem discutir nada. Daí eles entram numa agência, numa TV, para estagiar e pronto já acham que sabem tudo, que o professor é um bocó. E aí ele chega cansado em sala de aula e pede para o professor dar umas aulas mais divertidas pra compensar o dia de trabalho "na mídia". Há uma inversão. O professor bacana é aquele que sabe contar piadas, falar de sua vida pessoal... "fazer amizade" com os alunos. Que no fim, é o que vc escreve nas suas conclusões [...silêncio ...]. Bom, eu escreveria muitas coisas, mas isso poderia ser tudo muito apressado para quem está só há 10 anos em sala de aula. Acho que eu tb tô precisando de uns conselhos. ;)

Marco Aurélio disse...

Cara, eu já passei dos 30 e ainda me queixo da falta de orientação para algumas coisas. O mercado parece o Lord of the Flies, manja? Um bando de crianças numa ilha sem um adulto que os oriente. Regras e lideranças vão surgindo de forma atropelada. O resultado é que muita gente ainda vai se machucar.

Tai disse...

Oi, eu tenho 22 anos, será que levo pro lado pessoal? :-p

Então... me incomoda sobremaneira esse lance do copy and paste exercido deliberadamente sem que haja uma real autoridade por trás da informação que circula. Talvez isso reduza a oportunidade dos ingênuos em amadurecer idéias realistas, mas emburrecer os inteligentes? Duvido muito.

Agora, como jovem que sou, tenho particular má vontade com os mais velhos que reclamam que minha geração não sabe dialogar com os amadurecidos. Será mesmo que o problema reside apenas na pirralhada? Vejo tantos quarentões e cinqüentões sem a menor iniciativa em aprimorar as ferramentas de diálogo com as gerações mais novas. Percebo também que os pós-balzacos, em sua maioria, tendem a subestimar as gerações mais novas. Chato isso, porque existem mentes brilhantes surgindo por aí justamente por saberem conciliar muito bem a amplitude de conhecimentos adquiridos na web com uma gama de instruções oferecidas pelos nossos mais experientes mestres.

Um denominador comum é possível com o esforço das duas partes. Até porque, sinceramente, será que é à toa que os jovens preferem aprender qualquer coisa com a internet? Será que aprendemos nos meios tradicionais o que temos de aprender de fato?

Gilberto Pavoni Junior disse...

Fred
concordo que há uma egosfera. Aliás, sou mais inclinado a adotar esse termo como algo real do que blogosfera. Sou meio contra esse negócio de juntar um monte de gente diferente com expectativas e produção distintas e nivelá-los só pq usam a mesma ferramenta tecnológica.

Eu vejo lados bons nessa egosfera. O principal: eles estão mais "no ponto" para virarem produto ou mesmo empreendedores. É essencial que alguém capitalize nisso, até para deixar as bandeiras com quem tem competência para levá-las.

Ale,
eu não era muito diferente disso qdo estava na faculdade. E, sabe? Isso é o pior. Desde aquele tempo as cabeças continuam estagnadas. Nada evoluiu. De vez em qdo até regridem para um comportamente 68 e invadem a reitoria procurando o diabo de todos os diabos... como se o mal estivesse em apenas um lugar.

Marco,
O drama disso é q haveria uma chance (tão remota qto o surgimento da vida no universo)de se criar algo novo, já que os conceitos, estigmas, paradoxos e paradimas antigos nem seriam levados em conta. Mas, o que ocorre é um eterno retorno ao ponto inicial.

Tai
Acho q teria de fazer um post só pra te responder. Mas, o que me preocupa não é um conflito de geração (q é algo normal a cada 15, 20 anos) é um gap numa estrutura de repasse de bagagem intelectual. Não é velho x jovens... é iniciantes + (ou seria -) mentores.

O essencial nisso é diferenciar sabedoria de conhecimento. O q a Internet e cultura digital fazem hoje, sem qq questionamento, é promover o conhecimento (algo técnico)... a sabedoria depende de mais coisas, inclusive a atitude pessoal.

Muito do problema está aí. Se a preocupação é adquirir técnica e ela está facilmente acessível, a tendência de nivelação é grande.

O que eu vejo é q ninguém está muito preocupado em adquirir sabedoria, o q se vê por aí é uma busca por conhecimento técnico e entertainment. E pq não? Já q tudo q será pedido está arquivado na Web e ele sabe usar. Vê? Não leve para o lado pessoal pq a culpa não é dos mais jovens. Se faltam mentores, a culpa é dos mais velhos.

Lembre-se: haver por aí chefes, professores, gerentes, pais, etc.. não significa q haja mentores.

valeu a visita povo. Essa resposta para a Tai talvez gere um post mais explicadinho sobre Sabedoria x Conhecimento.

Edu disse...

Giba, essa questão é complicada mesmo. Esses dias estava discutindo com um amigo algo parecido. No mercado hoje, o que interessa é ser bom vendedor e ponto. Vender seu conhecimento, vender suas propriedades e aplicá-las, vender ferramentas de tecnologia, vender, vender, vender. É a velha história do inglês. O cara pode ser um panaca, não saber absolutamente sobre determinado trabalho, mas basta ele saber falar inglês muito bem que estará empregado. É só dar uma geral na quantidade de vagas disponíveis e não preenchidas porque a exigência primordial é o inglês.

Já falamos disso várias vezes, executivo bom e valorizado é o vendedor nato. E essa molecada ainda não aprendeu a se vender. Os que conseguirem idenfiticar isso vão virar empreendedores, mas aí entram outros milhares de fatores.

Conhecimento, para essa geração, por incrível que pareça é descartável. Há uma noção generalizada de que o que realmente vale é a reputação. E é só nisso que eles se espelham. Tem o fato também de boa parte dos líderes da web serem muito jovens e não encontrarem forma melhor de arrebanhar esses caras e fazê-los produzir algo realmente útil.

O "coach" seria essencial para qualquer um, em qualquer profissão. Mas não dá tempo, não há paciência, não existe dinheiro para isso. Então, bota o moleque lá pra ganhar qq merreca e toca o barco fazendo mais do mesmo. O velho? Ah, esse aí dançou e vai procurar migalhas pra sobreviver o resto da vida.

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