sábado, 26 de junho de 2010

Cala a Boca Galvão, UmdiaSEMGlobo e Fail

Nessa semana na qual o País de Chuteiras acompanhava as possibilidades da Seleção de futebol classificar-se para as oitavas de final da Copa da Àfrica do Sul, as empresas grandes e tradicionais tiveram de encarar um novo desafio trazido pelas chamadas novas mídias. O consumidor tem voz ativa e está virtualmente aí ao lado, com um megafone na mão.

Há muito se teoriza sobre isso - antes mesmo do Twitter e do Facebook. Porém, o caso pode se tornar exemplar ao expor tudo que antes era restrito e pouco visível.

A história gira toda em torno da Seleção, seu técnico, a Globo e ainda ganhou ares políticos em ano de eleição ao recuperar um ressentimento antigo com a manipulação de notícias da TV, provavelmente algo ainda não digerido da disputa presidencial entre Collor e Lula. Mas, todo o fuzuê é uma lição sobre como funciona o comportamento do consumidor atual. Serve para qualquer empresa.

Tudo começou com uma insatisfação com o principal narrador esportivo da maior rede de televisão do País -- Galvão Bueno -- ganhou força no Twitter e gerou uma onda de críticas que fez a expressão "Cala a Boca Galvão" ser o assunto mais comentado na rede social de 140 caracteres por dias seguido. Teve lá umas gambiarras anárquicas para elevar o assunto artificialmente, mas ainda com cara de protesto.

O feedback oficial até foi rápido e simpático. Galvão Bueno respondeu. Utilizou um dos programas especiais da Copa na Globo para dizer que tb concordava com o protesto, já que era conhecido como papagaio entre colegas.

O assunto poderia ter morrido alí não fosse outro fato relacionado com a Copa e a Globo ter vindo à tona. Em uma entrevista coletiva, o técnico da Seleção, Dunga, soltou uns palavrões murmurantes ao criticar um jornalista da Globo que tentava arrumar entrevistas exclusivas com os jogadores do time. Dunga havia proibido essa prática. O atrito ganhou um editorial xexelento no programa Fantástico, na voz do apresentador Tadeu Schmidt. Imediatamente, o Twitter foi inundado por uma nova expressão - Cala Boca Tadeu Schmidt.

Simultaneamente, iniciou-se um movimento também de protesto. Com a tag #DiaSEMGlobo, algumas pessoas começaram a organizar um boicote ao canal de TV durante o último jogo da Seleção na primeira fase da Copa, contra Portugal. Evidentemente, a Globo acionou seu time de estrelas para defender a instituição e parece que até usou de alguma consultoria em redes sociais para fazer um contramovimento.

Não vou entrar no mérito de cada estocada na Globo, suas respostas nem na validade desse tipo de protesto on-line. O que quero alertar é que algo que há muito tempo era teorizado finalmente deu as caras de forma incontrolável e visível.

O consumidor de hoje é menos tolerante.
Ele seguramente irá reclamar diante de qualquer falha, demora, imprecisão e outro problema que possa ocorrer em qualquer produto ou serviço prestado. Se ele não vai à rua com um cartaz na mão pedindo boicote, ele ao menos irá reclamar na Internet. E como o mundo digital é exemplar em conectar gente com o mesmo pensamento, em minutos ocorre um tsunami de opiniões semelhantes que pode afetar a imagem de qq empresa.

Os protestos contra a Globo evidenciam que aos olhos de muitos de seus consumidores a empresa tem problemas na oferta de seu produto.

- Cala a Boca Galvão mostra que o narrador não é uma unanimidade como muitos acreditam e seus erros nas transmissões são tão aceitos como uma embalagem que não abre, um sabão que não limpa ou um carro que sai de fábrica com barulhos na suspensão.

- DiaSEMGlobo evidencia que há consumidores insatisfeitos com o modelo centralizador, discriminante e draconiano do noticiário da TV - principalmente o político. Se a Globo fosse uma lanchonete, vc seria amarrado ao balcão e só comeria as únicas duas ou três opções do cardápio. Não daria nem pra pedir seu sanduíche sem cebola. É claro q vc pode escolher outro estabelecimento... se todos não imitassem esse modelo. Os consumidores querem mais opções, mais itens no cardápio e a possibilidade de consumir um hambúrger mais ou menos tostado.

- Cala Boca Tadeu Schmidt é aparentemente uma série de comentários discordantes sobre a linha editoria da Globo. Não seria tão grave se não viesse acompanhado de muita insatisfação com outra crítica ao modelo de negócio e ao produto da emissora. Nas últimas Copas, a concentração da Seleção foi transformada em Big Brother e o péssimo desempenho do time sempre foi atrelado posteriormente à essa espetacularização da notícia esportiva. Provavelmente, os consumidores (essa fatia que protesta, ao menos) querem um produto-notícia mais isento.

Uma última dica para quem quiser estudar mais o caso.

Cala a Boca por cala-boca, isso não é uma ofensa como uma pedrada na vitrine. Expressões como cala a boca, fail e lol fazem parte da expressão dos jovens de hoje. São gírias. Devem ser entendidas não com seus sentidos descritos no dicionário, mas com seus significados como linguagem típica atual. É uma crítica, mas não um chute no saco com botinada no nariz.

Por mais que os protestos contra a Globo tenham falhado. Fail maior é não entender as lições que isso traz sobre o novo consumidor e como ele se comunica. Hoje, foi a Globo... que tem lá suas vitrines prontas para serem apedrejadas. E amanhã? Sua empresa está preparada? É com políticas de crise em comunicação ou simplesmente com portas abertas às sugestões dos consumidores???

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Meus problemas com a Geração Y

Tenho algumas críticas quanto ao conceito de Geração Y (pessoas nascidas na década de 80 e início de 90). Acredito sim que essa geração possui novos hábitos de consumo porque nasceram em uma época na qual a globalização é uma realidade, a Internet na sua forma comercial está consolidada e toda a tecnologia de comunicação deixou de ser coisa de engenheiro e especialista e se tornou muito mais próxima do nosso dia-a-dia.

Mas, daí a achar que são algo absolutamente novo que merece toda essa lambeção que vemos no noticiário vai uma grande distância.

Primeiro, se você pegar toda a punhetação teórica em cima do termo irá perceber que na verdade ele define o comportamento instável de um jovem típico. Quer sempre aprender mais, não pára no emprego, necessita de acompanhamento de uma pessoa mais velha (os especialistas em Recursos Humanos sempre dizem q a Geração Y não deslancha sem um coaching ou mentoring), gostam de dinheiro e novidades, etc... E, principalmente, reage de forma passional e receptiva aos temas que são importantes à sua época (como ecologia, ética) e que geram uma ruptura com o que pensam seus pais. Ou seja, é um jovem como um jovem deve ser.

Era assim na década de 70 e na de 60 /// não dá pra ir muito mais longe nessa comparação porque o estudo de gerações começou recentemente, com o fenômeno dos baby boomers, que são os filhos do pós-guerra e da estabilidade econômica e da reconstrução do pós 2ª Guerra. Mas, acredito que em gerações anteriores não era diferente... costumo ver os conflitos na história da arte e do pensamento para tirar uma idéia ou outra nesse sentido.

Me aponte uma nova geração que não rejeitou ou redefiniu os valores da anterior e eu apago esse post.

A geração Y está na moda apenas porque é um novo e potencial mercado para as empresas venderem seus produtos. O que me leva a crer que o hype em cima do termo é mais influenciado pelo comércio do que qq aspecto social. Eles são bons consumidores porque têm dinheiro na mão e uma ânsia de comprar coisas que sejam típicas de sua geração.

O q tb não é novidade. A publicidade e o marketing sabem há décadas que os jovens usam o consumo como forma de aceitação social.

Jovens também costuma se ligar em pessoas com o mesmo pensamento e criam comportamentos alternativos para serem aceitos em grupos e ajudar na difícil fase de transição da adolescência para a vida adulta. Com isso acabam assumindo liguagens próprias desses grupos. Nenhuma novidade.... interagir entre eles com palavras e expressões q são estranhas aos mais velhos (saca as conversas por SMS?), fortalecer os laços dos grupos onde são aceitos (saca comunidades virtuais e movimentos como emos, cyberpunks, etc... e saca as tão faladas comunidades?).

Qual a novidade então?

A novidade é que a geração Y é usuária plena da tecnologia.

Uau!!! Mas, que tecnologia? A que eles criaram? Não. É a que os pais criaram.

E aí o caldo da geração Y começa a entornar.

A Internet foi desenhada e nasceu na Guerra-Fria, ou seja, é uma invenção de baby-boomers. Tudo bem que era só coisa de militares, cientistas e governantes com medo que o inimigo destruisse o mundo... Mas, mesmo a rede mundial de computadores que conhecemos hoje foi obra de Tim Berners-Lee e outros gênios q estão longe de serem geração Y. O Mosaic, primeiro navegador visual de sucesso da então careta Internet é de 1993, criado por um grupo de acadêmicos que eram ou baby-boomers ou geração X.

A Web Social, ou Web 2.0, ou seja lá como queiram chamar, também é fruto do movimento comercial iniciado no final dos anos 90 por jovens que trataram de abrir a fronteira do comércio eletrônico e ajudaram a criar a bolha pontocom. Eram mais geração X do que qq outra coisa.

Sim, a geração Y é filha da tecnologia... mas esse "filha" deveria ser melhor entendido. E, se bobear, nem é a que mais sabe lidar com isso. Já que nasceram com tudo isso amadurecido, não conseguem ver as rupturas da mesma forma q alguém q passou sem computador, viu como o bicho era útil, não tinha Internet e viu como a rede era útil... não sabe a diferença entre um mainframe e uma arquitetura cliente-servidor, não sabe o que foi o downsizing para a taxa de emprego, não sabe a diferença entre a reserva de mercado e a globalização, etc, etc, etc....

Para a GenY, a ruptura é normal. E, sendo assim comum, não é percebida de imediato. Já, quem viveu várias rupturas, tem maior capacidade de enxergar qdo algo está mudando ---> questão de experiência acumulada.

E, por aí vai... A geração Y gosta de falar inglês e é valorizada por isso. Mas, a globalização é um fenômeno que vem do fortalecimento do mercado de massa e do apetite financeiro mundial que se iniciou com os baby-boomers e recebeu muito fermento da GenX.

Há uma coisa típica da GenY q nunca é destacada. Até porque é uma falha e as empresas nunca vão falar.. "Olha q idiotas vcs são".. pq pode perder um potencial consumidor. É a geração que teve os ritos de passagem da infância pra adolescência e para a fase adulta (sim, os caras já beiram os 30 anos e já são homenzinhos e mulheres formadas) mais livres. A GenX e os baby boomers foram péssimos pais, foram ausentes por diversos motivos.... Não é por acaso que existe um conceito muito bom para definir os nascidos na década de 80 que é a Peter Pan Generation... mas, que foi esquecido. Ah... o conceito Mileurista (q é europeu e não americano como a geração Y) tb é muito mais explicativo às vezes.

Sim, a Geração Y é um conceito americano e até parece q encaixa muito bem naquele país. Mas, no Brasil, já é meio torto. Ah, é a geração Internet. Mas, que Internet? Hoje temos cerca de 35 milhões de internautas ativos aqui no Brasil e só um terço disso tem banda larga e pode viver toda experiência do modo de vida online. Pô, são 200 milhões de habitantes... Nos EUA, a Internet cobre 90% da população e entre 60% e 70% são de banda larga... e isso há alguns anos.

Qual é a GenY brasileira se nem Internet ela tinha e só começa a ter agora??? E que poder de consumo definido esses jovens têm se só agora a família começou a ter grana pra gastar com compras que não são apenas para sobrevivência? Posso pensar aqui com meus botões q a GenY brazuca é mais GenX do q outra coisa??? No máximo um X' ou -Y?

Evidentemente q posso.

Então, a Geração Y brasileira é só o jovem bem nascido? Sim. São os jovens filhos de profissionais liberais e de uma elite que sempre teve a vida ligada ao mundo? Filhos de uma cultura global de quem já teve acesso a isso a gerações anteriores? É uma elite?

No Brasil, o conceito de Geração Y só cabe se vc estiver falando desses jovens da antiga classe média... antes da estabilidade econômica dos últimos anos.... OK, pustza novidade voltar o foco pra eles com conceitos importados dos EUA...

O assunto é longo e não gosto de escrever textos grandes assim no blog. Mas, prometo voltar ao tema. Enquanto isso, reflita um pouco se isso tudo não é relativo e estamos perdendo o foco sobre as nossas gerações... O Brasil tem mudado mais do que o mundo de uma forma geral e é bem provável que esses conceitos americanos só fiquem bons mesmo lá nos EUA.

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