terça-feira, 5 de agosto de 2008

O futuro dos blogs

Blogar é comunicar e se expressar. Simples assim. Na verdade, é mais a segunda do que a primeira. Já dizia o poeta italiano Arturo Graf: "se os homens quisessem falar só daquilo que entendem, quase não falariam". Manifestar opiniões e publicá-las para o mundo ver é uma conquista da última década. Blogs também são isso -- liberdade.

Tudo muito bonito, mas isso aqui não é trilha sonora de filme açucarado. A blogosfera está numa encruzilhada. Não tem nada de good morning sweet little world. Excesso de informação, profissionalização, falta de talento, estrelismo e a simples transformação de jovens em adultos (mesmo q ainda tardiamente como um mileurista) estão mudando o que se conhece hoje como blogosfera.

O problema é que esse discurso muito bonito e pomposo está sendo sufocado por uma realidade cada vez mais visível. O excesso de informação está confundindo a cabeça de muita gente. Já em 2005, o Technorati apontava que surgia um blog a cada segundo no mundo. Hoje... bom... hoje esse número não importa, qualquer coisa mais rápida que 1s é descabida.

Eu fico imaginando como seria a reação do mundo se todas as palavras ditas por pessoas se transformassem em imagens e ficassem flutuando no ar. Imagino isso em 1980, sem a Internet como algo diário de nossas vidas como é hoje. Assim, vc diz "oi, como vai?" e essa frase fica planando por aí.

Hoje, isso é o q acontece. Felizmente, todas as opiniões e frases expressas pela humanidade conectada estão somente no ambiente on-line. Ainda posso ir comprar pão na esquina sem tropeçar em um "oi, como vai?" perdido por aí.

Blogueiros pioneiros vão se lembrar que há 5 anos não se tropeçava em coisas dessas por aí na Internet afora. Era preciso procurar muito. E quando se encontrava alguém capaz de dizer algo q ficava flutuando no ar, tangível, comunicado, havia uma identificação imediata. Sempre rolava uma amizade entre esses mágicos da comunicação e expressão.

Só que isso era antigamente. Nos dias de hoje, ter um blog e dizer coisas que ficam expostas para todos verem é como ter uma calça jeans.

Alguém lembra qual o último número divulgado sobre quantas pessoas compram calças jeans no mundo? Não? É pq não existe essa estatística. Isso não importa (a não ser que seja um tema muito específico que necessite desse estudo). Blogs estão nessa mesma situação. Qtos blogs vc tem no armário? E qtos já descartou, doou ou fez pano de chão, almofada ou remendo para outros blogs?

Por outro lado, temos a profissionalização de vários blogueiros. Empresas como Polvora, Live Ad e Knowtec são exemplos disso. O mercado está amadurecendo e isso implica em mudanças, respeito às regras (muitas delas as mesmas que publicidade tradicional e jornais se submetem)... ou seja, algum ponto de nivelamento com o q já existe de tradicional. Só isso já força o surgimento de algo novo. Mas, tem mais.

A profissionalização expôs a lista dos popstars. Blogueiros conhecidos q se conhecem e concentram a atenção de muita gente e já formam um corporativismo. Nenhuma crítica... e nenhuma surpresa aqui. O que já foi amizade entre blogueiros começa a ser relacionamento comercial. Com tanto público e adequação ao sistema sistema comercial, há a possibilidade de se perder a individualidade nisso e dar vez, novamente, ao nivelamento para aumentar ainda mais a audiência e o poder de barganha como um negócio.

Outras forças de mudança, já q isso se dá em mais do que três dimensões: há o surgimento de uma nova gama de ferramentas que permitem a expressão. No último ano, ficaram evidentes os microblogs como o Twitter e serviços como o FriendFeed. Muita gente está preferindo esses métodos para se expressar.

Aí, provavelmente está o ponto principal onde se pode sentir a mudança dos blogs. Há uma procura por uma nova forma de expressão. Algo mais rápido e mais amplo, que não seja só as palavras expressas num local, mas um conjunto de tudo que se faz. É a sua vida exposta, publicada.

Do lado do público, há uma demanda crescente por isso. Não existe nada mais interessante do que ver como as pessoas resolvem seu dia-a-dia. Eu pessoalmente acho q isso se dá pq o mundo está mudando como um todo e estamos perdidinhos procurando respostas para isso. É uma espécie de procura por coisas que nos ajudam a sobreviver. E vamos buscar isso no registro on-line das pessoas que achamos que vão nos ajudar. Provavelmente isso ficará mais forte na medida na qual os mileuristas, a geração à procura de esperança, dominam o mundo.

Nesse contexto, o conceito de lifestreaming (ou lifecasting)parece ser o mais adequado ao futuro dos blogs. Um post no Read Write Web explica bem isso. Mas, já é um termo discutido em outros locais há algum tempo, conforme mostra esse artigo "Welcome to the Naked Generation ", da News.com e esse post do Opiumseed que diz "O entretenimento do "futuro" vai ser o lifecasting.". Eu escrevi sobre o Justin.TV em um artigo publicado na revista B2B Magazine, há um ano.

trechos:

"Não há edição, sua rotina transmitida descarta efeitos que resumem a vida em um pacote de entretenimento. Tudo que é captado é transmitido. Não há truques ou diretor de casting, os personagens são pessoas que ele convive e que aparecem na sua frente. Não há nada além da vontade de ser visto. É o a difusão do seu ponto de vista."
(...)
"É até meio clichê citar a famosa frase de Andy Warhol, "um dia, todos terão direito a 15 minutos de fama ", numa altura dessas, mas um dos melhores (e poucos) textos sobre o Justin.TV, publicado em outubro no NY Times cita o rei da Pop Art logo no título: “A Site Warhol Would Relish”. O verbo é algo como regozijar. Portanto, algo que esse artista tão simbólico das mudanças na sociedade sentiria muito prazer em experimentar.
Mas, Warhol está morto. Assim como os cineastas Jean-Luc Godard e Glauber Rocha. Eu pessoalmente gostaria de ouvir o que eles diriam sobre o Justin.TV. O francês disse uma vez “Cinema is not a dream or a fantasy. It is life”, já o brasileiro tem o famoso bordão “Uma câmera na mão e uma idéia na cabeça”. O que ambos teriam a dizer sobre um serviço que permite que pessoas comuns façam de suas 24 horas diárias de rotina algo que seja assistido por desconhecidos?"


Na verdade, não é uma ruptura, um breakthrough com o sentido de avanço seria mais apropriado. Depois que os blogs promoveram a democratização do poder de produção e divulgação da comunicação e expressão veremos a mesma democratização, só q agora mais ampla. O próximo passo dos blogs é agregar a vida das pessoas que o escrevem... ou ter uma vida publicada em texto (blog, Twitter), som (Last.FM, podcasts) e imagem (youtube, Seesmic, Justin.TV).... tudo junto.

Enxergue como a consolidação do interesse pelo Realismo, se quiser. A dúvida sanada pela averiguação empírica, em tempo real e distantemente ligada por uma conexão de banda larga.

Com o lifecasting, blogueiros pioneiros têm mais uma chance de se diferenciar pela posse de bens eletroeletrônicos e conhecimento de técnicas de produção e divulgação. Wi-Fi, 3G, celulares com câmeras e gadgets conectados à Internet e ainda com preço de produto premium estão aí para ajudarem nessa evolução. Só vai faltar uma vida interessante para exibir ou vontade de ver a vida dos outros ... Não! Isso não falta.

Não é pra todo mundo, óbvio. Há ainda gente q acredita que a Terra é chata e vamos despencar se avançarmos muito em mares desconhecidos. Mas, pioneiros e exploradores servem pra isso mesmo, pra ir lá nos limites e ver se tudo acaba num grande buraco ou não.

8 comentários:

Monthiel disse...

Cara, achei o seu texto muito bacana..Blogs realmente mudou a vida e o cotidiano de muita genta. Eu sou uma.. gosto de escrever e estudo muito para isso, mas o mais difícil é encontrar criatividade para bolar um texto tão bacana quanto o teu.

grande abraço..

Ale Carvalho - Lain disse...

bom bit filosófico! Mas o que pra gente é vintage para muita gente ainda é "top hit". Sério. Talvez a abertura de percepção que mistura novos e velhos "usuários" é que dê o tom da permanência, transformação e claro, surgimento de novos blogs.

Fabio Cipriani disse...

Sorry Gilberto, mas o mundo tem de tudo, inclusive estatísticas de calças Jeans (ou ao menos na Holanda):

http://www.dutchnews.nl/news/archives/2008/07/nearly_everyone_owns_a_pair_of.php

Abraços!

Gilberto Pavoni Junior disse...

Montiel.
É uma questão de treino. Obrigado.

Ale.
Alguns avançam, outros vão ficando pelo caminho. Tanto produtores quanto público.. deveria ter escrito isso tb.

Fabio.
Porcaria. Tinha certeza q ia ter... De qq forma, nessas alturas dos números se existir algo mundial, o mais importante torna-se o como e não o quanto. :)

Tai disse...

Gostaria de ter algo a comentar, mas não tenho. E isso é um elogio, porque as considerações me completaram. :)

Stock Buster disse...

Excelente postagen.
Parabens!

stock buster, (desconhecido).

Ceila Santos disse...

Eita gênio Giba é tão bom ler um post assim fechado, coeso e pronto: assunto acabado. O que falar diante dessa tese tão real e clara. Nada? Hummmmm deixa eu ver onde posso dar um pitaco? preciso de vinho pra isso aqui e agora. ´Só pra ver se aprendi alguma coisa: há migração do uso das ferramentas para que a expressão seja preservada? ( dos blogs para twitters?) a maturidade dos blogs produzem novos canais na indústria de mídia que no passado eram totalmente impossível? há possibilidade desses novos canais virem á tona mesmo quando suas temáticas não sejam relevantes para quem faz audiência da web (blogs)?

Gilberto Pavoni Junior disse...

stock buster
cara, visitei seu blog e gostei muito, embora seja um mundo do qual meu contador disse q não tenho condições de participar...rs

Ceila
Ando meio tech heretic pra te responder tudo isso. Mas, dizia o Michael Hammer, q a internet não destrói modelos existentes. Ela remodela critérios de competição comercial, muda escopo... É por aí. Mudança nas regras do jogo só ocorreu qdo o q era átomo virou bit (na melhor análise q o Negroponte já fez na vida), como a indústria de música.
Duvido um pouco q os bons blogueiros não virem editores. O mundo precisa de editores nesse mar de informação q há. Talvez, curadores de informação. A massa é plana e para muita coisa, o crowdsourcing puro pode não servir, principalmente em bizne$$.

Duvido tb q os blogs não adquiram vários níveis de rapidezxprofundidade exatamente como há da TV->livro.

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