Wikileaks, a orkutização
TweetDemorei dias pra escrever sobre o "Wikileaks. Não porque estava em dúvida sobre sua importância ou porque não gostasse do trabalho desenvolvido pelo site. Simplesmente queria sentir algo impactante q condiz com minhas idéias sobre tecnologia.
Eu concordo com o fato de os telegramas vazados das embaixadas americanas serem a principal denúncia do site até hoje. As denúncias do Iraque e Afeganistão, divulgadas anteriormente, são visualmente mais fortes. Ver uma ação que metralha civis e jornalistas seguida de um comentário de trabalho bem feito é muito mais impactante no começo. Ver as torturas cometidas contra presos de guerra antes do almoço não é recomendável. Mas, saber que a principal potência do mundo troca mensagens de picuinhas sobre líderes mundiais baseadas em reportagens de jornais é muito mais triste. Para nós, habitantes de um país considerado periferia do mundo, é degradante.
Nós sabemos as mesmas coisas que a Hilary Clinton e os falcões da Casa Branca sabem... TERRRÍVEL ISSO!!! pra eles... e para os contribuintes americanos.
Aliás, os contribuintes americanos são os maiores beneficiados com o Wikileaks.
Pelo site eles souberam que:
- - os impostos pagos são pessimamente usados pq só trazem informações conhecidas e os serviços de inteligência estão comendo dinheiro.
- - estão pagando por tortura. (tem quem goste, tem quem não goste e paga do mesmo jeito).
- - O dinheiro dos impostos não impede vazamentos para terroristas.
- - Os políticos americanos não encaixam no mundo atual da Internet.
Mas, a coisa mais marcante que ficou na minha cabeça sobre o Wikileaks é o seguinte:
Wikileaks é a Orkutização do jornalismo investigativo.
Antes, investigar tretas de governo e empresas era coisa de jornalistas especializados. Aqueles que tinham acesso privilegiado às fontes que burlavam a segurança oficial para vazar documentos que provavam alguma atitude antidemocrática ou ilícita.
Isso agora é do Povão.
Qq um pode investigar.
Qq fulano pode ser um Bob Woodward e Carl Bernstein. Ou... melhor... qq ZéMané brasileiro pode ser melhor que o César Tralli, da Globo.
Para isso, basta acessar o Wikileaks e ir fuçando os documentos. Não é um trabalho fácil. Precisa entender alguma coisa de investigação. Tem de cruzar mais de um documento ou, no mínimo, ver a época em que foram divulgados e qual o contexto histórico de qq declaração. Mas, tb não é um bicho-de-sete-cabeças. Um pouquinho de massa cinzenta resolve.
Talvez, por isso, o maior medo que tenho visto em relação ao Wikileaks venha de gente que tb teme a orkutização de tudo. Existe um povo que não gosta de povo. Eles têm medo que sua privacidade vaze.
Oras, eu não entendo isso. Na quase totalidade, é um tipo de gente que tb está no Facebook. E o Facebook vaza muito mais dados pessoais do q o Wikileaks. O q o Wikileaks tem feito é vazar dados do governo e empresas para você. O q o Facebook faz é vazar dados seus para empresas e governo. Não entendo esse cagaço.
Sobre as análises até aqui do Wikileaks, eu acho todas válidas.Mas, com ressalvas.
- Guerra Cibernética - OK. É sim. Provavelmente a primeira cyberwar em âmbito mundial. Mas, já existiram outras. Georgia, Estonia, Taiwan e Myanmar já sofreram ataques cibernéticos e há quem diga que o próprio governo americano faz isso constantemente e chegou mesmo a fazer para tirar o Wikileaks do ar. Só q cyberwar é um pedaço de um conceito maior chamado Guerra de Quarta Geração... muito pior. Sem defunto. Ou melhor, sem corpo e a distância.
- Anônimos como força. Isso é super OK. Mas, tb foi um caso isolado até agora. Foi a primeira vez que uma quantidade extraordinária de gente que não entende de hacktivismo lutou. Qdo eles se reunirão novamente é uma incógnita. Não vai ser toda hora.
- Tendência. Sim. Outros sites como o Wikileaks vão proliferar. Mas, mais do que os sites, a atitude de vazar pode contaminar muita gente na Internet. Divulgar informações que revelam ações ilegais para a concentração de poder devem dar o tom nos próximos anos. Não tem a ver com o verbo vazar exatamente. Tem ligação com a força que a transparência e a sustentabilidade tem conseguido com os consumidores.
- Medo. Eu não gosto, mas até entendo o medo de quem vê no Wikileaks uma semente de uma atitude anti-privacidade. O site em si não tem motivo nenhum para isso. Ele só mostra como governos, principalmente o americano, é ruim e antidemocrático. Mas, há outros movimentos pelo mundo que podem se misturar no hype da discussão e fazer um melê. Há um site que vaza declarações sobre colegas de profissão. Certamente virão outros e virão paralelamente ao Wikileaks. Podem começar a ganhar mais vitrine pq de alguma forma tb são ligados a vazamentos.
- Julina Assange é um herói? Não. Isso é coisa de livros e cinema. Não existiam heróis que não tivessem pisado no tomate antes e não existem ainda. Assange é um gestor de um site importante para o mundo atual. É acusado de um crime comum em muitos países, mas grave na Suécia. Deve responder por isso pq é algo que afeta a relação e o respeito pelas mulheres. É humano e, provavelmente tem mais defeitos do que qualidades. Mas, sem ele a gente não estaria com os pelos ouriçados agora. É, sem dúvida, o personagem do ano.
Há muitas perguntas para serem respondidas ainda sobre o Wikileaks e Julian Assange. Mas, essas são as minhas certezas.